As lacunas na carteira de vacinação das crianças brasileiras vêm aumentando desde 2015 – no caso da poliomielite, as taxas têm ficado abaixo dos 95% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Desde 2016 a vacinação não chega a 90%, e em 2019, entre janeiro e setembro, ficou em pouco mais de 51%.

 

“Quem deixa de vacinar os filhos assume uma responsabilidade muito grande. Quando alguém não é vacinado há um retrocesso de quase um século. Isso porque, se houver um descuido, doenças graves como a poliomielite, por exemplo, podem voltar”, alerta o pediatra Clóvis Francisco Constantino, primeiro vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

 

Provocada pelo poliovírus, a pólio é uma doença contagiosa que afeta o sistema nervoso central, podendo causar paralisia das pernas – em uma a cada 200 infecções essa sequela é irreversível. Hoje gerações inteiras desconhecem o flagelo dessa doença, graças à ação das vacinas. Em 1988, quando a infecção atingia mais de mil crianças no mundo todo dia e estava presente em 125 países, a Assembleia Mundial da Saúde lançou a Iniciativa Global de Erradicação da Poliomielite. Hoje 80% da população mundial vive em regiões certificadas como livres da pólio.

 

A questão, dizem os especialistas, é que não se pode baixar a guarda. Vale lembrar que, embora dois dos três tipos de poliovírus selvagem tenham sido declarados extintos, o tipo 1 continua circulando. Dessa forma, devido ao risco de contágio em países onde a poliomielite ainda ameaça, o Ministério da Saúde recomenda a vacinação de adultos em viagens a regiões com baixa cobertura vacinal contra a doença ou onde ainda existe a circulação desse microrganismo (hoje presente no Paquistão e no Afeganistão).

 

Para os pequenos, desde 2016, o esquema vacinal na rede pública contra a poliomielite no Brasil prevê três doses da Vacina Inativada contra Poliomielite (VIP), injetável, no segundo, quarto e sexto mês de vida. Na sequência, a criança recebe a Vacina Oral contra Poliomielite (VOP), atenuada, aos 15 meses e em campanhas de vacinação.

 

Uma rede de desinformação

 

Não é de hoje que os especialistas alertam sobre o papel das chamadas fake news nesse cenário preocupante em que muitos optam por não dar as doses das vacinas a crianças e adolescentes. São inúmeras as informações incorretas sobre imunizantes disseminadas por redes sociais e WhatsApp, sem contar os movimentos antivacinas, que têm presença forte na Europa e nos Estados Unidos e reverberam por aqui.

 

Em 2019, um estudo feito pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e pela ONG Avaaz avaliou o impacto dessa rede de desinformação entre os brasileiros. De acordo com a pesquisa, 67% dos participantes acreditam em ao menos uma afirmação imprecisa sobre vacinação. Entre as pessoas que não se vacinaram, 57% relataram um motivo considerado como desinformação pela SBIm e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – entre eles o medo de ter efeitos colaterais graves após tomar uma vacina e o medo de contrair a doença com a própria vacina.

 

“A epidemia da desinformação é uma doença digitalmente transmissível que muitas vezes mata mais que as próprias doenças provocadas pelos agentes a que estamos acostumados”, pondera o pediatra Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da SBP. “É por isso que todos nós temos que nos empenhar para divulgar as informações corretas, com linguagem fácil e acessível para toda a população, sobre a importância das vacinas”, conclui o infectologista Guido Carlos Levi, secretário da SBIm.

 

Para os especialistas, o fato de não conviver mais com determinadas doenças, cujos casos foram sendo reduzidos justamente pela ação dos imunizantes, também colabora para a queda na procura pelas doses. “As vacinas revolucionaram as doenças infecciosas, fizeram desabar a mortalidade infantil em todo o mundo. No passado se convivia com pessoas com sequelas da pólio”, avalia Renato Kfouri. “O preço desse sucesso tem sido a diminuição da percepção de risco”, completa o pediatra. “Mas é sempre bom lembrar que quando uma pessoa se vacina está protegendo a si própria e também a sua comunidade”, conclui Guido Levi.

 

Quem deixa de vacinar os filhos assume uma responsabilidade muito grande. Quando alguém não é vacinado há um retrocesso de quase um século. Isso porque, se houver um descuido, doenças graves como a poliomielite, por exemplo, podem voltar” Clóvis Francisco Constantino, primeiro vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria.