A erradicação da poliomielite no mundo é um desafio internacional, já que a doença ainda acontece de forma endêmica em pelo menos dois países – Paquistão e Afeganistão –, o que aumenta o risco de algum continente ter um caso importado, e o vírus voltar a circular em regiões em que ele já foi eliminado. O Brasil recebeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) o certificado de eliminação da pólio em 1994, mas o último caso da doença foi registrado no País em 1989. Nos últimos cinco anos, no entanto, a baixa cobertura vacinal tem preocupado especialistas, que temem o ressurgimento não apenas da pólio, mas de outras doenças.

 

No Brasil, desde 2016, o esquema de vacinação contra a pólio disponível nas unidades básicas de todo o Brasil prevê três doses da Vacina Inativada contra a Poliomielite (VIP), aplicada por meio de uma injeção, no segundo, no quarto e no sexto meses de vida da criança. O reforço, que deve ser dado dos 15 aos 18 meses e também aos 5 anos de idade, é feito por meio da Vacina Oral contra a Poliomielite (VOP).

 

Segundo a médica Luiza Helena Falleiros, membro do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a tendência é que, no futuro, o esquema de vacinação contra a pólio utilize exclusivamente a vacina injetável, com vírus inativado, para que a erradicação da doença ocorra no mundo todo, avaliou durante a transmissão do painel “Caminhos para Erradicação da Poliomielite”, no Summit Saúde Estadão, no último dia 28.

 

 

A complexidade do nosso calendário vacinal, que engloba dezenas de vacinas para a infância, é um fator apontado pelos especialistas como um dos problemas para que a adesão à vacinação esteja em queda, e as cadernetas de vacinação, incompletas – a campanha atual ainda não chegou a atingir 40% do público-alvo, segundo o Ministério da Saúde.

 

Por isso, diante das novas tecnologias, outra tendência apontada pelos especialistas será a simplificação do calendário nacional de vacinação, de forma que ele seja mais enxuto e tenha vacinas combinadas para reduzir a quantidade de vezes que os pais precisam se deslocar ao posto de saúde para vacinar os filhos e também diminuir o número de picadas nos bebês e nas crianças.

 

“É mais sensato e mais razoável que você combine mais de um antígeno em uma única aplicação, para que não se perca a oportunidade de vacinar a criança. Muitos pais quando levam os filhos ao posto de saúde acabam protelando alguma vacina porque ficam com dó de dar mais de uma injeção. Eles vão embora, e a gente perde a oportunidade de vacinar”, ponderou Luiza Helena.

 

Vacinação e vigilância

 

O infectologista Leonardo Weissmann, do Instituto Emílio Ribas e presidente da Comissão Pólio Plus do Rotary, reforça que é fundamental que os pais e responsáveis se conscientizem da importância de vacinar os seus filhos para protegê-los de várias doenças, e não apenas de pólio. “O Brasil acabou perdendo seu certificado de eliminação do sarampo por baixa cobertura vacinal. Nosso programa de imunização é referência mundial e distribui vacinas gratuitamente. Os pais precisam se conscientizar da importância das vacinas.”

 

Na década de 1950, a pólio era um dos principais temores das famílias por causa das suas graves sequelas, entre elas a paralisia dos membros inferiores e até a incapacidade de respirar sem ajuda de aparelhos. Milhares de crianças ficaram com sequelas, e a vacinação em massa reduziu progressivamente os casos.

 

Mesmo com a poliomielite erradicada no Brasil, o Ministério da Saúde mantém uma intensa vigilância epidemiológica e estudos do meio ambiente para ter a certeza de que o vírus não está em circulação no País. Em março de 2014, por exemplo, a OMS detectou a presença do poliovírus selvagem tipo 1 em algumas amostras coletadas no esgoto do Aeroporto Internacional de Viracopos, de Campinas, mas o risco do reaparecimento da doença foi descartado por causa da ampla cobertura vacinal na época.

 

“Temos uma vigilância muito forte e que atua de forma precoce. Como naquele momento [2014] ainda havia uma imunização bastante alta no Brasil contra a pólio, o País não registrou nenhum caso”, afirmou Homma. “A tendência da baixa vacinação não é só no Brasil, é mundial. Precisamos buscar novas alternativas para convencer a população a se vacinar”, completou.

 

“É mais sensato e mais razoável que você combine mais de um antígeno em uma única aplicação, para que não se perca a oportunidade de vacinar a criança” Luiza Helena Falleiros, membro do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

 

A importância de manter a vacinação em dia

 

Mesmo fora dos períodos de campanha, os mais de 40 mil postos de saúde estão equipados para receber e vacinar em todo o País.

 

 

A baixa cobertura vacinal contra a poliomielite é um desafio que o Brasil e outros países estão enfrentando nos últimos anos. Mesmo com a campanha nacional de vacinação contra a pólio, que esteve em vigor no mês de outubro, até o dia 26 apenas cerca de 35% (4 milhões) de crianças com menos de 5 anos tinham sido vacinadas, segundo o Ministério da Saúde. O público-alvo estimado da campanha é de alcançar 11,2 milhões de crianças nessa idade – o que significa que mais de 7 milhões delas ainda não receberam o imunizante.

 

Ainda segundo o Ministério da Saúde, até essa data, apenas 4,16% dos municípios brasileiros atingiram a meta de vacinar 95% das crianças. Por enquanto, a maior cobertura vacinal foi registrada no estado do Amapá (62,59%), e a menor cobertura ficou em Rondônia (11,76%). O estado de São Paulo vacinou 30% das crianças esperadas.

 

“Esperamos uma cobertura de 95% na vacinação contra a pólio para crianças com menos de 5 anos, mas até o momento, em plena campanha nacional, não chegamos nem a 40%. É um dado alarmante. Corremos um sério risco de essa doença voltar”, afirmou Leonardo Weissmann, médico infectologista do Instituto Emílio Ribas de São Paulo e presidente da Comissão Pólio Plus do Rotary durante a transmissão do painel “Caminhos para Erradicação da Poliomielite”, no Estadão Summit Saúde.

 

A vacinação continua

 

A campanha de multivacinação foi lançada pelo governo no dia 5 de outubro, e terminaria no último dia 30, mas foi prorrogada até o dia 21 de novembro. Tem como foco a vacinação contra a pólio e também a multivacinação, com o objetivo de atualizar a caderneta de crianças e adolescentes com até 15 anos – por isso são ofertadas todas as vacinas do calendário nacional. A recomendação do Ministério da Saúde aos estados que não atingirem a meta é continuar com a vacinação de rotina durante o ano todo, nos mais de 40 mil postos de saúde distribuídos pelo País.

 

Segundo Akira Homma, assessor científico sênior de Bio-Manguinhos/Fundação Oswaldo Cruz, o governo tem feito um grande esforço para colocar novas vacinas à disposição da sociedade, mas a população não tem levado os seus filhos para vacinar. “Temos que buscar estratégias de comunicação e informação que talvez não estejam chegando à população. Temos que contrapor as fake news e investir na educação em saúde para recuperarmos a cobertura vacinal”, afirmou.

 

A médica Luiza Helena Falleiros, membro do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), tem a mesma opinião. “O ponto central da ferida é a baixa cobertura vacinal. Se não tivermos uma cobertura vacinal adequada, vamos ter a reintrodução de doenças, não só da poliomielite, mas de várias outras. Se tivermos uma cobertura de 95%, pode circular qualquer vírus que nossas crianças estarão protegidas.”

 

“Esperamos uma cobertura de 95% na vacinação contra a pólio para crianças com menos de 5 anos, mas até o momento, em plena campanha nacional, não chegamos nem a 40%. É um dado alarmante. Corremos um sério risco de essa doença voltar” Leonardo Weissmann, médico infectologista do Instituto Emílio Ribas de São Paulo e presidente da Comissão Pólio Plus do Rotary.

 

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