Ela já foi uma das doenças mais temidas entre as famílias brasileiras na década de 1970 e levava à paralisia centenas de milhares de crianças no mundo. Hoje presente em dois países, Paquistão e Afeganistão, a pólio ainda pode ser transmitida pelo vírus selvagem 1 – os tipos 2 e 3 foram considerados erradicados em 2015 e 2019, respectivamente.

 

A ciência, porém, alerta que não se pode menosprezar esse perigo. “Enquanto houver casos em algum lugar deste planeta, existe sempre um risco de que possa ocorrer uma exportação e atingir outros países”, afirma o infectologista Guido Carlos Levi, secretário da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Afinal, lembra o médico, vivemos uma era de grande mobilidade e facilidade de viagens internacionais. “O Brasil erradicou a pólio em 1989, mas alguns anos atrás a doença ainda existia em Angola, e sabemos o grande nível de intercâmbio entre os dois países. Havia, então, um risco elevado de que viessem para cá pessoas infectadas e a doença fosse reintroduzida entre nós”, contextualiza Levi. Em outro exemplo, em 2010, foi registrada a primeira importação de poliovírus selvagem para a Europa desde que a região foi declarada como livre de pólio, em 2002.

 

 

A regra, portanto, é manter a vacinação em dia e não abrir nenhum espaço para a volta desse vírus responsável por sequelas graves e, em alguns casos, a morte. Embora na maior parte dos casos a infecção cause sintomas inespecíficos, como febre, mal- estar, dor de cabeça e dor de garganta, quando a ela atinge o sistema nervoso central costuma desencadear problemas motores irreversíveis. O quadro então progride para dores nas articulações, pé torto, crescimento diferente das pernas, osteoporose, paralisia de uma das pernas, paralisia dos músculos da fala e da deglutição e atrofia muscular 3 – e de 5% a 10% desses pacientes morrem quando os músculos respiratórios são acometidos e ficam imobilizados.

 

A preocupação dos especialistas com a baixa cobertura vacinal se intensifica neste 2020, ano em que o justificável medo de sair de casa em razão da covid-19 pode elevar ainda mais o número de crianças sem a proteção dos imunizantes. “Ficou difícil mesmo para a população compreender as duas mensagens: ‘fica em casa’ e ‘vamos vacinar’”, analisa Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). “Mas a vacinação é um serviço essencial.”, completa.

 

Desde 2016, o esquema vacinal contra a poliomielite no Brasil prevê três doses da Vacina Inativada contra Poliomielite (VIP), injetável, no segundo, quarto e sexto meses de vida. Na sequência, a criança recebe a Vacina Oral contra Poliomielite (VOP), aos 15 meses 5 . “A vacina é um tesouro, um bem público. Neste momento estamos trabalhando na campanha de multivacinação para atualizar as doses de crianças e adolescentes”, diz a pediatra Helena Sato, diretora técnica da Divisão de Imunização da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

 

Veja mais aqui