Cultura para Todos – Mozarteum Brasileiro

Música, dança e histórias que inspiram

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Semelhanças entre carnaval e ópera

Ópera e Carnaval: dos palcos para o asfalto

Das origens em comum aos desfiles que reverenciaram ícones da música na Passarela do Samba, são muitas as referências que aproximam os dois gêneros

Dezembro chegou e, enquanto os últimos aplausos são ouvidos nos teatros e salas de concerto do País, os barracões das escolas de samba intensificam os trabalhos visando o Carnaval do próximo ano.

Apesar da sazonalidade distinta, essas duas manifestações artísticas se aproximam de várias formas. Para começar, vale lembrar que ambas são de origem popular. Além disso, demandam um longo tempo de produção, costumam resultar em grandiosas montagens e são capazes de despertar a emoção das plateias quase que instantaneamente.

Um dos principais entusiastas do tema, o pesquisador e doutor em Carnaval Hiram Araújo (1929-2017), chegou a comparar o desfile das escolas de samba aos autos medievais.

No livro O Brasil É um Luxo: Trinta Carnavais de Joãosinho Trinta, ele escreveu: “É um espetáculo dramático que cresceu e teve que ir para a rua. Todas as artes são presentes: a música, a poesia, a dança e as artes plásticas. Do sambista, extrai-se tudo”.

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Um olhar mais aprofundado permite outras comparações: o enredo, por exemplo, equivale a uma espécie de libreto; cantores e ritmistas atuam como solistas e músicos de uma orquestra; já alegorias, fantasias e samba-enredo remetem, respectivamente, aos cenários, figurinos e à própria obra.

“Joãosinho Trinta implantou essa percepção através da organização cênica dos desfiles. Ele dividia seus enredos em atos e explorava aspectos cenográficos que conheceu nos tempos em que era bailarino do Teatro Municipal”, comenta Igor Carneiro, responsável pelo barracão de alegorias da Mancha Verde, atual campeã do carnaval paulistano em 2019.

“Estudei teatro durante 15 anos. Acredito que seria muito proveitoso se todo artista ou dirigente de escola de samba vivenciasse o desenvolvimento de uma ópera – e vice-versa – para compreender melhor a afinidade entre ambas”, completa Igor, que também é carnavalesco.

Consagração na passarela

Outro fator de aproximação histórica tem sido os enredos inspirados em maestros, compositores e solistas brasileiros de reconhecida importância. Heitor Villa-Lobos, por exemplo, já foi reverenciado por duas agremiações cariocas: primeiro pela Estação Primeira de Mangueira, em 1966, com enredo de Júlio Mattos; e, 33 anos depois, pela Mocidade Independente de Padre Miguel, em desfile assinado por Renato Lage.

 

 

“Quando pensava em um tema, meu pai já projetava o desfile. Se a história não pudesse ser contada em boas imagens, ele já descartava. No caso do Villa-Lobos, a pesquisa ficou tão rica que serviu até de fonte para outras publicações”, conta Júlio Mattos Filho, que comemorou cinco títulos na Verde e Rosa ao lado do pai, falecido em 1994.

Outro que recebeu homenagem caprichada do samba carioca foi Carlos Gomes. Em 1995, a Unidos da Tijuca exaltou seu legado com Os Nove Bravos do Guarani. “A batuta do maestro, como a vara de condão do mago, diz que a grande temporada de ópera popular vai começar”, anunciava a sinopse de Oswaldo Jardim, repleta de referências às obras do compositor campineiro.

Linguagem única

Para o carnavalesco e figurinista Renan Ribeiro, o grande desafio em desenvolver um enredo considerado “erudito é estabelecer uma linguagem única, capaz de adequá-lo à cultura popular, à identidade da escola e aos olhares do público e dos julgadores.

“O desfile de escola de samba tem uma forma de comunicação muito específica, é preciso respeitá-la para que a narrativa seja clara e contínua”, argumenta Renan. Ele vivenciou essa experiência em 2017, em sua estreia pela União Imperial, atual bicampeã do carnaval de Santos (SP). Na ocasião, a agremiação celebrou a trajetória do pintor Benedicto Calixto.

Assista também:

Unidos de Vila Isabel (RJ) | “O maestro brasileiro está na terra de Noel” |  2015
Carnavalesco: Max Lopes
A azul e branco de Noel Rosa homenageou o maestro Isaac Karabtchevsky e retratou algumas das principais obras que ele regeu ao longo de sua carreira, como O Lago do Cisne, de Piotr I. Tchaikovsky, e O Navio Fantasma, de Richard Wagner.

Vai-Vai (SP) | “A Música Venceu” | 2011
Carnavalesco: Alexandre Louzada.
A Saracura conquistou seu 14º título dedicando um enredo ao pianista João Carlos Martins. A ideia surgiu quatro anos antes, quando a escola e o músico se encontraram para uma apresentação do primeiro movimento da Quinta Sinfonia, de Beethoven.

Beija-Flor de Nilópolis (RJ) | “Bidu Sayão e o Canto de Cristal” | 1995
Carnavalesco: Milton Cunha.
Bidú Sayão atravessou o sambódromo triunfante, do alto de seus 92 anos, reverenciada como a soprano brasileira de maior popularidade em todo mundo. A escola ainda inovou ao levar para a avenida um coral lírico, que pontuava trechos do samba-enredo.