A pandemia e a nova realidade do trabalho fazem crescer o burnout entre mulheres

Acúmulo de atividades, desigualdade de oportunidades no ambiente corporativo e desconfiança em relação ao trabalho híbrido afetam negativamente as profissionais, indica pesquisa global

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7 de junho de 2022

As mulheres foram as mais afetadas em seus trabalhos durante a pandemia de covid-19. A desigualdade de gênero, não só nas empresas, mas em toda a sociedade, foi um dos fatores que contribuíram para o esgotamento das profissionais. Na soma de teletrabalho com tarefas domésticas, elas ficaram muito mais sobrecarregadas do que os homens. No Brasil, 44% das mulheres disseram estar sofrendo de burnout, número que sobe para 54% entre as profissionais negras ou pertencentes a grupos étnicos minoritários.

Esse contexto, adicionado à remuneração inadequada, à falta de oportunidades claras de crescimento e às políticas de trabalho inflexíveis, acabou piorando o cenário de forma geral, como mostra a segunda edição da pesquisa global “Women@Work”, conduzida pela Deloitte com mais de 5 mil mulheres em dez países (500 delas no Brasil).

Noventa e seis por cento delas trabalham em tempo integral – sendo que 43% atuam de forma híbrida, 37%, remotamente e 20%, presencialmente.

Insatisfação e falta de clareza

Entre as principais conclusões da pesquisa, foi detectada uma grande insatisfação com os salários e com a falta de planos de carreira. Por causa desses dois fatores, 49% das mulheres brasileiras disseram que planejam largar seus empregos atuais nos próximos dois anos. Essa contrariedade se dá, principalmente, por causa do esgotamento mental/emocional, que aumentou entre as brasileiras.

“Em 2022, com base na pesquisa, podemos perceber que muitos avanços ainda são necessários para evitar o burnout e a saída das mulheres da força do trabalho”, aponta Venus Kennedy, sócia de consultoria empresarial e líder do Delas, programa de diversidade de gênero da Deloitte Brasil. Segundo a executiva, muitas empresas já progrediram na busca por essa equidade, mas ainda há muito que melhorar.

Trabalho híbrido ainda é um modelo em evolução

Entre as respondentes da pesquisa da Deloitte, 27% das mulheres no Brasil, proporção igual à dos demais países, afirmam estar insatisfeitas no trabalho. As profissionais brasileiras também se dizem menos motivadas em suas funções desde o início da pandemia (23%). Neste ano, 44% ainda se sentem menos otimistas em relação às oportunidades de carreira.

Diante da nova realidade do trabalho, o que os empregadores vêm fazendo, ou ainda podem realizar, para amenizar essa situação? A pesquisa mostrou que, mesmo com as ofertas de possibilidades de jornadas mais flexíveis, o sentimento da grande maioria é de receio de que elas sejam vistas negativamente pelos empregadores caso decidam optar por esses modelos.

Até mesmo a forma híbrida de trabalhar causa uma certa desconfiança. Para 36% das brasileiras, atuar dessa forma significa não ter exposição suficiente à liderança. Além disso, as mulheres brasileiras que atuam nesse modelo são muito mais propensas a terem sofrido pequenos atos de desrespeito no ano passado (70%) do que aquelas que trabalham totalmente de forma remota (33%) ou totalmente presencial (40%). Entre essas situações, 12% das profissionais brasileiras relataram se sentir excluídas em interações ou conversas informais.

As profissionais negras ou pertencentes a minorias étnicas se sentem excluídas de interações informais (18% para mulheres desse grupo, ante 12% do total Brasil). Além disso, elas afirmam que alguém levou o crédito por suas ideias (15% e 11%, respectivamente) ou tiveram menos oportunidades de falar em reuniões em comparação aos colegas homens (11% e 7%, respectivamente).

Equidade de gênero

Organizações que de fato apoiam as mulheres em suas carreiras, respeitando o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, promovem iniciativas inclusivas que geram bem-estar e satisfação no trabalho. Essa é uma jornada que deve ser trilhada por várias organizações no Brasil e no mundo. O estudo também identificou muitas organizações atrasadas nesse sentido: 20% afirmaram trabalhar para organizações com culturas menos inclusivas (foram 24% das entrevistadas globais). No entanto, no recorte brasileiro da pesquisa, apenas 8% das profissionais disseram trabalhar em organizações que atuam de forma mais inclusiva.