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20 de julho de 2026
A transformação digital no setor público se tornou uma urgência. Mas, quando pensamos em compras públicas, a modernização nem sempre entrega o que promete. Essa é a provocação central da publicação Tendências para Governos 2026, da Deloitte: digitalizar processos antigos e complexos tende a apenas “esconder” a burocracia atrás de novas telas, sem reduzir prazos, sem melhorar a experiência do fornecedor e sem aumentar a efetividade do gasto público.
A publicação anual é voltada a mapear tendências transformadoras no setor público e analisa como governos estão redesenhando seus “sistemas operacionais”, ou seja, regras, fluxos de trabalho, processos decisórios e ciclos de aprendizagem para responder a um ambiente acelerado por IA, restrições fiscais e riscos interconectados. Entre as oito tendências de 2026, uma ganha destaque por um item crítico da gestão pública: a governança e eficiência do processo de compras. Sem aquisições mais simples, rápidas e orientadas a resultados, políticas públicas e investimentos ficam travados em gargalos que corroem valor e confiança.
“Simplificar primeiro” é a nova regra do jogo
O setor público é uma das principais indústrias de atuação da Deloitte ao redor do mundo e temos observado um padrão recorrente: governos investem em ferramentas digitais, anunciam ganhos de velocidade e esperam que a automação resolva atrasos históricos. Só que, na prática, o resultado muitas vezes decepciona. A tecnologia replica fielmente as mesmas cadeias longas de aprovação, revisões redundantes e processos decisórios pouco claros. Com isso, os prazos quase não mudam e a confiança na modernização se desgasta.
A mudança de lógica é relativamente simples, mas nem sempre fácil de implementar: em vez de começar pela ferramenta ou tecnologia, deve-se começar pelo processo. Isso significa esclarecer quem decide o quê, padronizar documentos e trilhas de contratação e concentrar energia no que realmente importa: quão rápido fornecedores críticos conseguem entregar, quão amplo é o mercado de fornecedores interessados em atuar com o poder público e se o gasto público gera resultados relevantes. Só depois de simplificar é que soluções digitais e IA entram, de forma seletiva e estratégica, para reforçar trajetórias claras, não para “digitalizar a bagunça”.
Quando essa reestruturação é bem feita, a diferença aparece no cotidiano: etapas diminuem, fornecedores encontram um caminho mais previsível e gestores públicos passam a enxergar ganhos mensuráveis em velocidade, acesso e impacto.
Destacam-se a seguir três tendências-chave que observamos ao redor do mundo e que nortearão as práticas de compras governamentais:
1. Velocidade: comprar mais rápido sem perder a responsabilidade e segurança jurídica
As regras de compras existem para proteger o interesse público, baseadas em equidade, gestão de risco e proteção do recurso do contribuinte. O problema é o acúmulo de burocracia: revisões se multiplicam, documentação cresce, aprovações se sobrepõem e aquilo que deveria reduzir risco passa a atrasar a entrega.
A tendência é dar um passo atrás e se perguntar: quais etapas realmente protegem o público e quais persistem por hábito? Em 2025, por exemplo, o governo dos Estados Unidos iniciou um esforço para reescrever regras centrais de compras em linguagem simples e remover duplicidades, buscando reduzir cláusulas desnecessárias, elevar limites para compras simplificadas, clarificar direitos decisórios e encurtar ciclos de compra. A ideia foi reduzir o foco exclusivo em conformidade procedimental e avançar para compras responsáveis e orientadas a resultados.
Depois dessa simplificação, ferramentas digitais passam a fazer diferença de verdade. No Internal Revenue Service, a automação da revisão de contratos reduziu o tempo de análise de horas para minutos, justamente porque o processo já estava claro. Na Índia, ao padronizar bens e serviços comuns e criar um marketplace digital compartilhado, o Government e-Marketplace, o governo reduziu tempos de ciclo de compra em mais de 30% – um ganho atribuído não apenas à plataforma, mas à simplificação da estrutura de compras rotineiras.
2. Acesso: ampliar a concorrência e facilitar a entrada de novos fornecedores
Muitos processos de aquisição podem excluir fornecedores qualificados, especialmente pequenas empresas e novos entrantes, pois, quando os requisitos são complexos, as oportunidades são esporádicas ou a participação é imprevisível. O resultado é um mercado menos competitivo e menos inovador, com dependência de incumbentes acostumados ao labirinto.
É necessário reduzir barreiras para simplificar documentos de propostas, padronizar requisitos, criar trilhas de qualificação mais previsíveis e manter oportunidades visíveis ao longo do ano. No lugar de licitações pontuais com regras diferentes, a sugestão é criar critérios estáveis e caminhos reutilizáveis, como credenciais reaproveitáveis, comunicação clara e expectativas consistentes.
Nesse sentido já se observam bons exemplos ao redor do mundo. A Iniciativa “Better Buying, Public Services and Procurement Canada” focou em reescrever contratos de forma mais clara e remover cláusulas e requisitos desatualizados. No Reino Unido, reformas associadas ao Procurement Act 2023 incluem exigências de pagamento rápido que melhoram o fluxo de caixa de fornecedores menores.
Existem ainda exemplos de plataformas com escala e visibilidade: a Chile Compra conecta órgãos públicos a mais de 110 mil fornecedores, elevando transparência e participação; e a Pae Hokohoko Marketplace, da Nova Zelândia, possui um catálogo de fornecedores pré-qualificados, permitindo qualificação contínua e competição por um ponto de entrada compartilhado.
3. Foco em resultados: contratar impacto, e não apenas atividades
A terceira tendência aponta uma mudança de lógica: muitos detalham horas, atividades ou entregas intermediárias, mas não deixam claro qual impacto se espera gerar. A abordagem “outcomes-first” inverte essa lógica: começa pela definição do resultado desejado e, a partir disso, estrutura contrato, pagamentos e monitoramento. Isso costuma envolver poucos indicadores, mas mais relevantes, e um acompanhamento mais transparente.
Esses resultados podem ser organizados em três níveis: impactos para cidadãos (como bem-estar, segurança e saúde), resultados de serviços (como efetividade, alcance ou satisfação) e resultados tecnológicos (como adoção, tempo de implantação e capacidade entregue).
Nesse formato, já existem modelos de incentivos por resultados: o Children’s Trust Fund, do Missouri (EUA), que paga incentivos adicionais quando metas específicas são atingidas; e o Digital Outcomes and Specialists Framework, do Reino Unido, que mede progresso do serviço, conforme funcionamento do software.
Como o Brasil tem se posicionado nesse contexto?
As compras públicas ocupam posição central na administração governamental, tanto pelo volume de recursos que movimentam quanto pelo impacto direto na qualidade das políticas públicas. Esse conjunto de processos representa uma das maiores parcelas do gasto estatal, o que o transforma em um instrumento decisivo para eficiência fiscal, transparência e geração de valor à sociedade.
Nesse sentido, a Lei de Licitações de 2021 representou um marco de mudança, que buscou fortalecer a fase de planejamento das contratações, com a exigência de instrumentos como o Plano Anual de Contratações e os Estudos Técnicos Preliminares, além da introdução formal da gestão de riscos e de estruturas de governança ao longo de todo o ciclo contratual. A nova lei também revisou as modalidades de licitação, extinguindo o convite e a tomada de preços, introduzindo o diálogo competitivo, voltado a contratações complexas e inovadoras.
Adicionalmente, programas de financiamento e de assistência técnica liderados por organismos multilaterais têm viabilizado recursos e investimentos, reforçando essa tendência de modernização da gestão pública, digitalização de processos e o fortalecimento do planejamento do gasto público.
Desafios importantes ainda existem e precisam ser enfrentados, especialmente relacionados à capacitação dos agentes públicos e à adaptação cultural das organizações. Mas, com os avanços recentes, o País passa a contar com bases mais sólidas para transformar as compras públicas em uma alavanca real de eficiência e entrega de valor à sociedade.