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7 de agosto de 2026
Nos últimos anos, empresas brasileiras avançaram de forma consistente na estruturação de programas de conformidade, práticas internas de governança e mecanismos de gestão de terceiros. Esse movimento mostra que a agenda de integridade já faz parte da rotina de muitas organizações, com processos voltados à prevenção, ao monitoramento e à mitigação de riscos. Ainda assim, essa frente exige atenção permanente: à medida que a empresa cresce, sua cadeia de terceiros se amplia e, consequentemente, os riscos também ganham escala.
Hoje, a complexidade das cadeias de valor e a multiplicidade de participantes ampliam a exposição das organizações a riscos de integridade, reputação, aspectos regulatórios, socioambientais e trabalhistas, entre outros. Nesta seara, um risco crítico no cenário atual, nacional e global, é envolver-se diretamente com práticas ilícitas, através da conexão com fornecedores, representantes, distribuidores, clientes e parceiros. Na prática, esse risco deixou de estar restrito ao comportamento interno da organização e se estendeu a toda a sua rede de relacionamentos. Mesmo vínculos indiretos, quando não identificados e tratados a tempo, podem gerar impactos financeiros, jurídicos, reputacionais e operacionais relevantes.
Na última sondagem da Deloitte sobre o tema, cerca de metade dos respondentes no Brasil indicou que impactos financeiros de eventuais incidentes com terceiros, como perda de receita, custos para reconstrução da reputação, compensações, multas e ações legais, pode superar US$ 10 milhões – e até ultrapassar US$ 50 milhões, na visão de três em cada dez deles. A gestão proativa e inteligente desses riscos é essencial para a própria sustentabilidade dos negócios. A complexidade do desafio é proporcional à gravidade do risco – muitas vezes, trata-se de um esforço para identificar algo que é praticamente invisível.
O guia da Câmara de Comércio Internacional no Brasil (ICC Brasil) sobre gestão de riscos ligados a organizações criminosas mostra que essas associações vêm se valendo de empresas legítimas, cadeias produtivas complexas e operações com aparência regular para ampliar sua presença em diferentes setores. Entre os principais sinais de alerta mapeados, estão empresas recém-constituídas com alto volume financeiro, beneficiários finais não identificados, inconsistências operacionais e financeiras, uso de intermediários sem função clara, pressão por exceções ou urgência fora do fluxo e mudanças frequentes de contas bancárias. São sinais que raramente aparecem isolados e, quando não endereçados a tempo, permitem que o risco se consolide ao redor da operação.
Diante desse cenário, algumas práticas se consolidam como prioritárias como a incorporação do tema na matriz de riscos; a evolução dos processos de due diligence para além do cadastro formal, com identificação do beneficiário final e coerência econômica e de conexões indiretas; o monitoramento contínuo de terceiros; a maior rastreabilidade e governança das decisões, reduzindo zonas de informalidade; e o treinamento das equipes para que reconheçam os sinais e os reportem sem receio. Integração entre áreas operacionais e de controle, monitoramento contínuo, reconhecimento explícito dos limites dos controles formais e combinação de dados e comportamento tornam-se fundamentais.
A integridade é um compromisso ético e, ainda, uma decisão estratégica, especialmente em um contexto em que os vínculos entre estruturas empresariais legítimas e redes de criminalidade organizada ganham atenção crescente. Em março, foi sancionada a Lei nº 15.358/2026, que institui o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil e amplia o arcabouço jurídico nacional sobre o tema. Ao mesmo tempo, organismos e governos ao redor do mundo também colocaram o assunto em pauta com ações e decisões com impactos além de suas fronteiras.
Empresas que fortalecem mecanismos de prevenção, monitoramento e resposta têm maiores chances de proteger a reputação, reduzir exposições financeiras e jurídicas, ampliar a inserção em mercados internacionais e aumentar sua resiliência operacional. Nesse cenário, manter uma visão formalista de compliance, restrita ao cumprimento documental de obrigações, deixa negócios vulneráveis não somente a sanções, mas à perda de confiança, competitividade e capacidade de operar em cadeias de valor cada vez mais exigentes.
Além da resposta regulatória, esse cenário propicia às empresas que atuam no Brasil uma reflexão estratégica: até que ponto cada organização conhece, de fato, sua cadeia de relacionamentos, suas conexões indiretas e os riscos que podem se materializar fora de seus limites formais? A que riscos estão expostas sem ter a mínima ciência? É nesse contexto que a integridade passa a ocupar posição central na estratégia, na governança e na criação sustentável de valor, abrindo novas fronteiras para as empresas que investirem na conformidade e na evolução de seus controles.
* Leonardo Moretti é sócio-líder de Risk, Regulatory & Forensic da Deloitte e Allan Leitão Le Senechal é sócio de Risk, Regulatory e Forensic da Deloitte.