Pela primeira vez, em quase 20 anos, o Brasil não atingiu a meta de vacinação para nenhuma das principais vacinas indicadas para crianças com menos de um ano de idade, segundo dados de 2019 do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. O cenário de queda na cobertura vacinal vem acontecendo com maior intensidade nos últimos cinco anos e trouxe um alerta para o risco do reaparecimento de doenças que até então estavam eliminadas ou controladas – como o sarampo, por exemplo, que passou a registrar novos surtos em 2018, chegando à marca de cerca de 20 mil casos em 2019.

 

Em geral, a meta de vacinação é atingida quando de 90% a 95% do público-alvo recebe o imunizante, mas há casos de cobertura vacinal variando entre 70% e 85%. Dados preliminares de 2020 mostram que existem regiões com adesão em torno de 60%, o que é extremamente preocupante. Entre as vacinas com redução na cobertura estão aquelas que protegem contra poliomielite, sarampo, caxumba, rubéola, difteria, catapora, rotavírus e meningite. Especialistas afirmam que o problema se agravou ainda mais com a pandemia do novo coronavírus, pois muitas famílias decidiram adiar a vacinação dos filhos com medo de se contaminarem pela covid-19 no deslocamento até as clínicas ou postos de saúde.

 

Falta de conhecimento

 

Segundo o pediatra Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), não há uma explicação exata para justificar a queda na adesão, mas entre as hipóteses estão a falsa sensação de segurança pelos mais jovens, que não chegaram a conhecer essas doenças; alguns casos de desabastecimento dos imunizantes na rede pública; o próprio calendário de imunização, que contempla 20 vacinas na infância; e também o crescimento da desinformação, das fake news (notícias falsas) e do movimento antivacina.

 

“Nós estamos vivendo uma situação que já vinha se tornando preocupante nos últimos cinco anos e que agora se tornou muito grave. Muitos pais jovens não conheceram o sarampo, que estava controlado. Não viram rubéola, difteria. O último caso de poliomielite foi registrado no Brasil em 1989. Isso causa uma falsa sensação de segurança e de que a doença não existe mais”, avalia Cunha.

 

O pediatra Clóvis Constantino, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), também considera a baixa adesão à vacinação preocupante e reforça o fato de que a vacina não é apenas para proteção individual e sim coletiva. “Vacinar os nossos filhos é uma questão de ética, cidadania e respeito com o ser humano. O nosso programa de imunizações é considerado um dos melhores do mundo, e as vacinas que ele oferece são absolutamente consagradas cientificamente.”

 

A preocupação dos especialistas vem do fato de que essas doenças, que não estão alcançando a cobertura vacinal esperada (como sarampo, pólio e meningite), podem se tornar muito graves principalmente em crianças. “A transmissibilidade do sarampo é altíssima. Uma criança pode transmitir o vírus para outras 15”, afirma Constantino. A SBIm lançou a campanha “Vacina em dia mesmo na pandemia” em parceria com a SBP e com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para alertar os pais sobre os riscos de não vacinarem seus filhos. “As escolas vão retomar as aulas, e, sem vacina, a tendência é que os vírus dessas doenças voltem a circular”, avalia Cunha.

 

No dia 19 de outubro, das 10h às 11h30, médicos especialistas e representante de entidade participaram do Diálogos Estadão Think – Cobertura Vacinal e Gestão da Saúde, evento online, com patrocínio da Sanofi Pasteur, que discutiu a importância da vacinação e será transmitido pelas mídias sociais do Estadão.

 

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