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11 de outubro de 2018

Muitos empreendedores não vão além do óbvio, avalia especialista em inovação

Para alguns, crise é sinônimo de apreensão, de enxugar gastos, de se arriscar o mínimo possível. Por outro lado, há quem entenda que os momentos de maior incerteza são ideais para promover grandes mudanças. Kip Garland, diretor da consultoria InnovationSEED, enquadra-se no segundo grupo. Ele avalia que situações adversas forçam uma reflexão que vai além do óbvio.

Há quase duas décadas no Brasil, o norte-americano afirma que, para encontrar soluções inovadoras, uma empresa deve ir contra “o que o resto está fazendo”. O empreendedor, diz, precisa identificar onde há demanda, mas falta oferta.

Confira trechos da entrevista.

Media Lab Estadão: De que maneira a inovação pode fazer a diferença em um contexto de crise?
Kip Garland: Quando as coisas estão boas, não preciso mudar o meu produto para vender mais. Os tempos de crise forçam uma reflexão que vai além do óbvio. Você começa a se questionar: “Por que o consumidor não compra mais? Tenho de mudar algo no meu modelo de negócio?”. Em 2012, estávamos concedendo empréstimo para pessoas comprarem veículos. Ninguém questionou se elas teriam como pagar. Era crédito, consumo. Mas é de carro que as pessoas realmente precisam? Ou é de transporte? Os aplicativos de carona ofereceram uma solução diferente. Senão, a gente estaria ainda tentando vender mais carro, e as ruas, com menos capacidade para absorvê-los.

MLE: Pensando em uma empresa que já está estabelecida no mercado, por que é importante que ela inove e não se acomode no seu modelo de negócio?
KG: É preciso inovar em duas vertentes. Inovar no que ela faz hoje por novos meios. O que o Estadão fornece? Informações, conteúdo. Isso não mudou nos últimos 150 anos. Agora, o “como” mudou. Antes era no papel, uma vez por dia. Hoje é em uma tela de celular e de forma instantânea. Só que o ser humano também tem uma evolução nos “quês” [no que deseja]. As coisas que eu quero para a minha vida mudam ao longo do tempo. Então, a empresa deve abrir uma frente de transformação dupla para crescer. Precisa mudar os “comos” [meios], mas também procurar novos “quês” [produtos e serviços].

MLE: Existe um momento certo para isso?
KG: Não existe um momento certo, pois nunca a primeira ideia é a que vinga. No Google, eles estavam na 22ª proposta de como fazer um buscador até que funcionou. Quanto mais cedo você começa, mais tempo tem para achar um modelo que sustente o negócio. Assim, a melhor coisa é buscar entender, dentro da sua ideia, quais as premissas mais críticas para que ela alcance o sucesso.

MLE: Por que nem sempre os investimentos em inovação têm o impacto esperado? Como corrigir isso?
KG: Um grande problema é que muitas empresas não têm, de fato, um insight diferenciado. O concorrente faz, elas fazem igual. Para realmente ter sucesso em inovação, você tem que ir contra o que o resto está fazendo, o que chamamos de insight contraintuitivo. As empresas são tão acostumadas a implementar as melhores práticas, a ter as melhores consultorias, que essa parte de novas ideias fica muito pobre, e elas não vão além do óbvio. Não basta ter sistemas para falar se o seu plano foi cumprido, se o orçamento foi entregue, se as metas foram alcançadas. Isso não gera insight. Gera informação que confirma o que as empresas já sabiam.

MLE: Quais desafios o empreendedor deve enfrentar ao longo desse processo?
KG: A primeira coisa que muita gente busca é um investidor. Se você reconhece que são necessárias 10 ou 20 tentativas para aperfeiçoar um modelo de negócio, jamais pegue dinheiro quando ainda estiver na terceira. O mais importante é realmente entender em quais pontos as pessoas não estão felizes.

Temos o caso de um sistema de pagamentos para a internet que, em determinado momento, notou que a maior parte das transações no Brasil ainda acontecia offline. Para entrar nesse meio, a empresa sabia que compraria briga com grandes concorrentes. O que fez? Uma preparação importante para quem quer inovar: passou a olhar quem quer o serviço, mas não consegue tê-lo. Descobriu que milhares de taxistas gostariam de oferecer para seus clientes a possibilidade de cartão de crédito. Muitos ambulantes também nunca tiveram dispositivo de cartão por falta de endereço fixo, CNPJ. Então, essa empresa foi justamente neles e conseguiu crescer de forma exponencial. O empreendedor precisa capturar esses insights de onde há demanda, mas falta oferta.

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