Cultura

23 de novembro de 2018

A música clássica e a ópera também estão nas raízes da MPB

Resgatar as origens MPB é uma tarefa árdua e, ao mesmo tempo, fascinante. A busca por este “DNA” passa pelas tradições nativas indígenas, funde-se com a cultura dos colonizadores e passa a incorporar elementos de diversas etnias, gêneros e movimentos artísticos ao longo dos tempos: entre eles a música erudita e a ópera.

Adaptada das cantigas coloniais portuguesas, mas com traços da ópera italiana e das sonatas alemãs, a modinha foi um dos primeiros gêneros a repercutir nacionalmente, no fim do século 18. Popular no eixo Rio-São Paulo e também na Bahia – onde incorporou-se ao lundu, de matriz africana –, ela contou com Cândido Inácio da Silva, Lino José Nunes e Guilherme Pinto da Silveira Teles como alguns de seus principais expoentes.

Já o canto lírico foi referência vocal nos primórdios da chamada “Era do Rádio”. Conhecidos por seus timbres poderosos, habituados a vibratos e a interpretações essencialmente teatrais, artistas como Vicente Celestino, Ângela Maria, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto se consagraram em todo País.

Batutas e batuques

Nos anos 40, um projeto tão inusitado quanto grandioso resultou em um inédito crossover entre samba e música erudita. Batizado Native Brazilian Music, o disco trazia 17 versões orquestrais para canções de Pixinguinha, Cartola, Luiz Americano e Donga, entre outros.

A gravação se deu no transatlântico S.S. Uruguay – então atracado no Rio de Janeiro – e contou com a participação de mais de 100 músicos da All American Youth Orchestra, sob regência do norte-americano Leopold Stokowski. Heitor Villa-Lobos também estava por lá e funcionou como uma espécie de consultor.

Ainda que motivado pelo viés político – no auge da Segunda Guerra, o Departamento de Estado dos EUA buscava aproximar-se do bloco sul-americano praticando a “boa vizinhança”, inclusive na área cultural –, o registro é um autêntico documento histórico.

Da Bossa Nova ao Clube da Esquina

Harmonias e andamentos mais complexos, muitas vezes inspirados em estruturas tradicionais da música clássica, continuaram a ser incorporados ao cancioneiro popular nos anos 1960.

De sólida formação erudita, Tom Jobim, por exemplo, chegou a dizer em entrevistas que a Bossa Nova foi profundamente influenciada por Villa-Lobos; e que Chega de Saudade possuía a sucessão de acordes “mais clássica do mundo”.

Já o chamado impressionismo erudito de Claude Debussy e Maurice Ravel era frequentemente citado entre as referências João Gilberto, Baden Powell e Dorival Caymmi, inclusive pela associação comum a temas que retratavam a natureza.  

O flerte com o repertório sinfônico também se deu nas Minas Gerais. Por lá, o Clube da Esquina ganhou notoriedade utilizando recursos como melodias sofisticadas, compassos pouco usuais, sobreposição de camadas musicais e a voz como instrumento. Assim surgiram trabalhos importantes de artistas como Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes.

 

Contribuições definitivas

A presença de elementos líricos e sinfônicos em torno da MPB ampliou-se também graças às contribuições de compositores como Radamés Gnatalli, Chico Buarque e Egberto Gismonti.

A formação clássica de Gnatalli, considerado o principal arranjador da história da MPB, exerceu influência evidente em suas mais de 6 mil criações à frente da Orquestra da Rádio Nacional e para as TVs Excelsior e Globo.

Com sua Ópera do Malandro inspirada na Ópera dos Mendigos, de John Gay, e na Ópera dos Três Vintéms, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, Chico, por sua vez, contrapôs com maestria o universo marginal do personagem título e a estética grandiosa das produções do gênero.

E Gismonti, por fim, levou esta fusão a outro patamar, não só rompendo com formatos pré-estabelecidos de composição, como inclusive criando seus próprios instrumentos para conseguir obter os sons que de fato desejava.

  Para ler ao som de…

“O Malandro (Die Moritat von mackie messer)”
(Bertolt Brecht / Kurt Weill
– Adaptação de Chico Buarque)

“Dança das Cabeças”

(Egberto Gismonti)                                                  

Sinfonia Popular

(Radamés Gnatalli)

Clube da Esquina Nº 2

(Milton Nascimento / Lô Borges / Márcio Borges)

Chega de Saudade

(Tom Jobim / Vinícius de Moraes)
Tocando Prá Você

(Luiz Americano)

Porta Aberta

(Vicente Celestino)

Ave Maria no Morro

(Herivelto Martins)

Lá No Largo da Sé Velha
(Cândido Inácio da Silva)

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