Cultura

24 de outubro de 2018

Geniais e geniosos

Poupe seu tempo. Não existe e nunca existirá a “receita” do regente ideal. Convenhamos, seria impossível estabelecer um padrão que agradasse milhares de espectadores, críticos e músicos das mais diversas origens e formações ao mesmo tempo.

Contudo, ainda que pareçam nítidas as diferenças que marcam personalidades e caminhos percorridos dos que se consagraram ao longo da história, é possível garimpar certos traços em comum. Eis aqui, portanto, algumas características que não costumam faltar àqueles que empunham a batuta. Sejam eles geniais ou, às vezes, geniosos.

 

A persistência

Pode parecer incrível, mas é fato: o lendário Sir Colin Davis (1927-2013) não foi admitido em sua primeira tentativa de ingressar no curso de regência da Royal College of Music de Londres. Escolheu então o clarinete e passou a formar conjuntos de câmara até que, enfim, conseguiu enveredar-se pelos caminhos da regência.

Já no caso de Nadia Boulanger (1887-1979), estabelecer-se como artista não bastou. Foi preciso também romper com a absoluta maioria do sexo oposto no exercício da função. Obstinada, tornou-se a primeira mulher a reger orquestras de ponta na Europa e nos Estados Unidos e ainda emprestou seu dom ao orientar artistas do porte de Astor Piazzolla, Philip Glass, Aaron Copland e Quincy Jones, entre outros.

 

O perfeccionismo

Arturo Toscanini (1867-1957) materializava esta obsessão como poucos. Com aptidão fenomenal para decifrar sonoridades e afinações, desenvolveu uma memória praticamente fotográfica. Isso lhe permitia conduzir seus músicos por horas a fio sem sequer passar os olhos pela partitura.

A precisão também era questão de honra para Claudio Abbado (1933-2014). Sua voz mal era ouvida nos ensaios, mas seu domínio técnico e rigoroso nível de exigência — da compostura dos músicos até a execução da obra – invariavelmente resultavam em registros primorosos. As complexas sinfonias de Gustav Mahler e Anton Bruckner que o digam. Em 2000, o Mozarteum Brasileiro trouxe Claudio Abbado e a Orquestra Filarmônica de Berlim ao Brasil, em históricos concertos.

 

O carisma

Vencedor de vários Emmys, Leonard Bernstein (1918-1990) conectava-se emocionalmente à música e à plateia como poucos. Versátil e extrovertido, imprimiu sua marca na direção da Filarmônica de Nova York e tornou célebres seus concertos para jovens transmitidos pela televisão. Foi o primeiro maestro com vocação verdadeiramente pop.

Valery Gergiev (1953), por sua vez, era o maestro certo na hora e lugar certos. A Sinfônica de Londres já procurava um sucessor para Sir Colin Davis quando o russo surgiu, movido pela adrenalina do desempenho, como descreveu o Financial Times. Sua presença e personalidade tiveram impacto imediato e mantiveram a orquestra em alta nas salas de concerto e na mídia. Atualmente, é diretor artístico do Teatro Mariinsky e regente titular da Filarmônica de Munique.

 

A excentricidade

Para Herbert von Karajan (1908-1989), manter a excelência musical da Filarmônica de Berlim era tão importante quanto criar oportunidades para dar mais visibilidade ao seu legado. Visto como populista e até megalômano – talvez um reflexo de suas controversas posições políticas –, fazia de sua competência extraordinária antídoto contra críticos mais ferrenhos. 

Com postura diametralmente oposta, Carlos Kleiber (1930-2004) adorava a reclusão. Nunca concedeu uma entrevista oficial, fez pouquíssimas gravações e, por vezes, parecia mais interessado em química. Quando subia ao pódio, porém, concebia performances geniais: basta ouvir sua condução em sinfonias de Mozart, Beethoven e Schubert.


A intensidade

Lorin Maazel (1930-2014) garantia nunca repetir um movimento para a mesma linha da partitura. Pudera. Prodígio, estreou à frente de uma orquestra aos 8 anos e dedicou-se ao longo de toda carreira a lapidar um estilo único e intransferível. “Meu objetivo é encontrar um gesto que indique a necessidade específica de cada momento para cada músico”, dizia. Maazel participou de sete temporadas brasileiras a convite do Mozarteum, a primeira em 1981 e a última em 2007.

Gustavo Dudamel (1981) despontou como um dínamo das fileiras do El Sistema, modelo didático musical que costuma revelar talentos latino-americanos. Sua presença jovial e enérgica no pódio tornou-se grife da Orquestra Simon Bolívar, da Filarmônica de Los Angeles (cuja direção artística assumiu aos 28 anos) e, mais recentemente, da Sinfônica de Gotemburgo.

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