Cultura

05 de setembro de 2018

A política e a sociedade na visão dos grandes compositores

As relações entre a arte e política são milenares. Ao longo da história, muito artistas fizeram de sua própria obra um instrumento ideológico. E revelaram, direta ou indiretamente, convicções acerca do regime e da sociedade em que viviam.

Os compositores clássicos não fugiram à regra. Da mesma forma que escritores, cineastas, pintores e músicos populares, entre outros, eles expressaram seu apreço ou criticismo sobre essas questões. Divergiam em suas posições, mas tinham a genialidade como ponto em comum.

Wolfgang Amadeus Mozart, por exemplo, encontrou nas mazelas sociais um terreno fértil em personagens e narrativas para suas óperas.

Foi assim com a luta de classes, que conduz a trama de As Bodas de Fígaro; e também com o Iluminismo, influência clara em A Flauta Mágica escrita após a revogação das reformas de Joseph II que descentralizavam o Império Romano-Germânico. Explica-se: Mozart e o imperador integravam a sociedade maçônica, uma das primeiras defensoras da “era do conhecimento”.

Ludwig von Beethoven, por sua vez, flertou com a monarquia francesa por um bom tempo. Primeiro declarou-se admirador do Réquiem em Dó Menor, um poema lírico de Luigi Cherubini que saudava Luís XVI e Maria Antonieta e condenava os movimentos populares. A seguir, decidiu chamar sua terceira sinfonia de Bonaparte.

A homenagem, no entanto, não se consumou: a autoproclamação de Napoleão à frente do império fez com que o compositor, decepcionado, mudasse de planos. Rebatizada Eroica, a obra foi dedicada “à memória de um grande homem” – mas sem citar nomes.

Resistência e identidade
Diversos compositores dedicaram-se a dar voz aos oprimidos – e acabaram reconhecidos por isso. Va Pensiero, célebre coro de escravos hebreus de Giuseppe Verdi na ópera Nabucco, se tornou uma espécie de peça de resistência dos italianos contra a dominação austro-húngara. Não à toa, após a unificação da Itália, Verdi foi nomeado para ocupar uma cadeira no Parlamento.

Já na virada do século XX foi a vez de Jean Sibelius se posicionar. Indignado com a censura imposta pela Rússia ao ocupar seu país, ele compôs Finlândia op. 26. A obra hoje é considerada o hino “não-oficial” da independência (que veio em 1917) e símbolo da identidade do povo finlandês.

Por outro lado, há situações em que a música contribuiu para a mudança de pensamento do próprio autor. Caso de Béla Bartók, que se afastou do nacionalismo ao estudar as origens étnicas da cultura húngara. Inspirado pelo que descobriu, passou a defender um estado mais inclusivo, aproximando-se dos trabalhadores rurais e dos estados vizinhos.

Ode à controvérsia

Em termos de atitudes polêmicas, o alemão Richard Wagner e o russo Igor Stravinsky podem ser considerados quase imbatíveis. Wagner chegou a combater a aristocracia alemã quando jovem, mas revelou-se nacionalista e antissemita algum tempo depois, especialmente quando seu projeto artístico se consolidou.

Coincidência ou não, Adolf Hitler marcou presença por duas vezes no Festival de Bayreuth, criado pelo compositor e então dirigido por seus descendentes.

Já Stravinsky, historicamente avesso a regimes liberais e simpatizante de Mussolini, ao que tudo indica, reviu alguns conceitos após mudar-se da Rússia para os Estados Unidos.

Ele chegou a recusar uma homenagem da Casa Branca nos anos 1940, alegando “problemas familiares”. Em 1962, porém, decidiu aceitar a honraria.

A noite em família ao lado do democrata John F. Kennedy foi das mais agradáveis. Um ano depois, consternado com seu assassinato, compôs Elegy for J.F.K. para reverenciá-lo.

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