Cultura

29 de agosto de 2018

Ópera à brasileira

Há registros de performances de ópera no Brasil desde o final do século 17, na Bahia e em Pernambuco. Alguns historiadores documentaram exibições envolvendo elementos musicais, cênicos e visuais antes mesmo desse período, como os autos sacramentais e os dramas pastoris, utilizados como forma de instrução religiosa ou entretenimento. Com a abertura de várias casas de ópera e teatros nos principais centros urbanos, o gênero foi ganhando força por aqui no século 18 e se consolidou com a vinda da corte portuguesa no início do século 19.

Admirador do gênero, D. João VI resolveu amenizar os dissabores do exílio encomendando uma obra ao padre carioca José Maurício Nunes Garcia. Le Due Gemelle foi escrita em italiano, como mandava a tradição, e deveria ter sido encenada em 1809. Contudo, não há registros que comprovem tal acontecimento. A partitura, por sua vez, teria se perdido num incêndio.

Por isso, “A Noite de São João”, com libreto em português de José de Alencar e música de Elias Álvares Lobo, costuma ser citada como a primeira ópera genuinamente brasileira, escrita e representada de fato. Sua estreia ocorreu no Rio de Janeiro, em dezembro de 1860, no palco do Teatro Real São João. A celebrada produção contou com a chancela da Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, cujo patrono era ninguém menos que o imperador D. Pedro II – outro famoso entusiasta da cena lírica.

A instituição ainda revelaria Antonio Carlos Gomes, alguns anos depois. O jovem campineiro começou como regente de orquestra, mas consagrou-se ao transformar o romance O Guarani – do mesmo José de Alencar – em uma ópera em quatro atos, com libreto em italiano de Antônio Scalvini. Il Guarany estreou em março de 1870, no Teatro alla Scala, de Milão, um dos mais prestigiados da Europa. Primeiro drama lírico composto por um brasileiro a conquistar crítica e público no exterior, permanece até hoje no repertório de grandes companhias e teatros de ópera pelo mundo.

De Jupyra ao Tamanduá

Em que pese a inevitável influência europeia, a ópera brasileira se estabeleceu incorporando a diversidade que sempre caracterizou nossa cultura, desde os elementos rítmicos até os temas e personagens retratados em cena.

Assim, vários compositores de reconhecida trajetória se enveredaram por seus caminhos a partir da virada do século 20. A lista inclui Alberto Nepomuceno (Artemis), Francisco Braga (Jupyra), Lorenzo Fernandez (Malazarte), Heitor Villa-Lobos (Izaht e A Menina das Nuvens) e Camargo Guarnieri (Um Homem Só), entre outros.

Nos últimos anos, trabalhos como Olga, de Jorge Antunes, baseado na biografia de Olga Benário Prestes, A Tempestade, adaptação de Ronaldo Miranda para o texto de William Shakespeare, e a bilíngue O Tamanduá – A Brazilian Opera, de João MacDowell, também mantiveram viva esta parte tão importante da história musical do país.

Uma noite com Anna Netrebko e Yusif Eyvazov

O Brasil já está no roteiro dos principais solistas e produções da cena lírica internacional há, pelo menos, um século. Nas últimas décadas, o gosto pela ópera vem crescendo por aqui. Dia 6 de agosto, a atenção de boa parte deles esteve voltada para a Sala São Paulo, onde a soprano russa Anna Netrebko e o tenor azerbaijano Yusif Eyvazov interpretaram algumas das mais famosas árias de todos os tempos.

O casal, que se apresentou pela primeira vez no Brasil graças ao Mozarteum Brasileiro, foi acompanhado pela Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, sob a batuta do maestro italiano Jader Bignamini. O programa incluiu excertos de clássicos como Otello , de Giuseppe Verdi, Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, Madama Butterfly e Tosca , de Giacomo Puccini, entre outros.

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