Cultura

02 de julho de 2018

Ações culturais alavancam desenvolvimento social

Equipes de produção cultural que atuam com responsabilidade social têm se mostrado decisivas na geração de conhecimento, qualidade de vida e oportunidades. Ao apoiar, valorizar e difundir arte e cultura, elas acatam a recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU), que considera manifestações artísticas e culturais importantes no combate à violência, na articulação comunitária e no desenvolvimento de habilidades criativas. Há 37 anos contribuindo com esse processo, o Mozarteum Brasileiro tem incentivado a formação de artistas e plateias, o fortalecimento econômico de polos culturais e turísticos e a disseminação de espetáculos musicais como instrumento de bem-estar.

Além dos concertos de música clássica e popular, o Mozarteum realiza gratuitamente masterclasses (clínicas com artistas expoentes), intercâmbios internacionais com bolsas para jovens músicos brasileiros, apresentações ao ar livre, academias de canto, aulas de iniciação musical para estudantes da rede pública e palestras introdutórias para espectadores (Clube do Ouvinte). Recentemente, a instituição criou sua própria orquestra acadêmica, oferecendo a jovens talentos brasileiros a oportunidade de se apresentar em concertos com nomes internacionais da música clássica.

Divisor de águas

Incontestável, por exemplo, é a injeção econômica provocada pelos oito dias de concertos do festival Música em Trancoso, que beneficia toda a cadeia turística da região de Porto Seguro (BA). Mas é na perspectiva pessoal que se cristaliza o poder transformador de cultura associada à responsabilidade social. A mezzo-soprano Josy Santos e o sopranista Bruno de Sá Nunes, talentos descobertos precocemente pelo Mozarteum Brasileiro, foram contemplados com bolsas de estudos no exterior e deram às suas vidas rumos antes nem sonhados.

Nascida em Araras (BA) e bacharel em canto pela Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, Josy seguiu para a Universidade de Frankfurt, na Alemanha, em 2012. A brasileira vive na Alemanha desde então, alternando colaborações com óperas conceituadas, como as de Stuttgart e Hannover, e participações em concorridos festivais europeus. “Aqui, compreendi a importância de estar sempre bem preparada para os ensaios, manter a técnica vocal em dia e buscar uma vida mais saudável. Amadureci”, diz.

A imersão em um ambiente musical de alto nível teve a mesma relevância para Bruno, que no próximo mês de outubro será um dos solistas do “Noite das Estrelas”, ao lado da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, na Sala São Paulo. Formado em Música pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Canto e Arte Lírica pela Universidade de São Paulo (USP), em 2016, participou da Academia de Canto da Chorakademie Lübeck, também em solo alemão. E descreve o período como um choque positivo. “Quando me vi diante de cantores jovens e bem qualificados, reconheci aspectos técnicos que precisavam ser trabalhados. Entendi que estava pronto para realizar audições, competir por papéis em óperas e iniciar minha carreira fora do Brasil.”

 

Na platéia

Ao incluir o Brasil na rota de orquestras, solistas e companhias de dança de reconhecido prestígio internacional, o Mozarteum não só estimula o interesse de novas gerações como também movimenta a agenda cultural de milhares de espectadores. Paulistana nascida e criada no bairro do Belenzinho, Therezinha de Almeida, 87 anos, ainda é uma das frequentadoras mais assíduas de óperas e concertos em cartaz na cidade. A tradição, herdada do pai, é preservada pela família, que costuma presenteá-la com CDs e DVDs de música lírica. A chance de estar pessoalmente diante dos grandes nomes da cena musical, contudo, ainda é sua principal motivação. “Sinto-me privilegiada por assistir aos artistas que até então só podia admirar pelas gravações. Para ver o Jonas Kaufmann encarei até fila para comprar ingresso”, diverte-se.

Passados dois anos desde a vinda do badalado tenor alemão ao Brasil, ela planeja repetir a experiência em breve: mais precisamente no dia 6 de agosto, quando a soprano russa Anna Netrebko e o tenor azerbaijano Yusif Eyvazov desembarcam para única apresentação na capital, também pela programação do Mozarteum.

Festival movimenta economia em Trancoso

Eventos culturais e ações educativas incidem diretamente na economia. É o caso do festival Música em Trancoso, realizado desde 2012 pelo Mozarteum Brasileiro no litoral baiano. A intensa programação de música e dança impulsiona o calendário turístico de março, incluindo-o como mês de alta temporada. Radicado na cidade desde 1975, o empresário carioca Carlos Eduardo Régis Bittencourt celebra a abertura de novos horizontes para a região. “A transformação e a rapidez com que a população respondeu ao estímulo foi impressionante. Nenhum de nós imaginava tal adesão, especialmente em um país que habitualmente investe tão pouco na cultura”, analisa. Construído para abrigar o festival, o Teatro L’Occitane é uma espécie de marco dos novos tempos. Sustentável, a moderna instalação se transformou num equipamento cultural definitivo para a cidade, recebendo espetáculos e eventos o ano todo.

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