Música

04 de maio de 2016

Por trás das cortinas

Em uma apresentação de música clássica, não há microfones ou amplificação. O equilíbrio dos sons da orquestra, e desta com o solista, deve ser minuciosamente ensaiado pelos próprios músicos, já que não haverá qualquer tipo de mixagem ou alteração do som antes de ele chegar ao público. Por isso, além do preparo dos músicos, uma característica fundamental num concerto é a qualidade da sala em que é realizado. Detalhes como o isolamento sonoro e a acústica podem fazer toda a diferença. Boa parte das apresentações do Mozarteum Brasileiro acontece na Sala São Paulo, eleita pelo jornal inglês The Guardian uma das dez melhores salas de concerto do mundo. Vale a pena saber um pouco sobre este palco consagrado.

Conheça a Sala São Paulo por dentro:

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História
A Sala São Paulo abriu suas portas em 9 de julho 1999 com a apresentação da sinfonia A Ressurreição, de Mahler, pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). A ressurreição de que trata a obra de Mahler poderia certamente se referir ao prédio que passou a abrigar a Sala São Paulo, originalmente o edifício da companhia Estrada de Ferro Sorocabana. Depois de ser peça central da economia cafeeira, que ajudou a transformar a capital paulista numa das mais ricas e pujantes cidades do mundo, na década de 1990 o imponente prédio vivia entre o abandono e a locação para festas e eventos diversos. Projetado por Christiano Stockler das Neves em 1925, o edifício é marcado pela sobriedade dos ornamentos e detalhes em estilo Luís XVI. Sua conclusão aconteceu somente em 1938, quando também passou a funcionar no local a Estação Júlio Prestes. Nesse momento, a urbanização de São Paulo já se caracterizava pela presença de automóveis, minimizando a utilização de bondes e trens. Essa tendência só se consolidaria e, no final dos anos 1950, a empresa já se encontrava em decadência.

Renascimento
Em 1997, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo decidiu transformar o espaço no Complexo Cultural Júlio Prestes, para abrigar a sede da Osesp (Sala São Paulo) e da própria Secretaria. Ao lado da Pinacoteca e do Museu de Arte Sacra, a Sala teria ainda a função de contribuir para a revitalização da região central da cidade. O arquiteto Nelson Dupré ficou encarregado de cuidar da restauração e readequação do espaço, com o grande desafio de transformar uma estação ferroviária numa sala de concertos, solucionando as questões acústicas e, ao mesmo tempo, preservando a arquitetura original. Como todos os que já estiveram ao menos uma vez no local podem atestar, todas essas questões foram resolvidas com eficácia e harmonia, e a bela Sala São Paulo, além de um privilegiado teatro para concertos sinfônicos, virou referência internacional como trabalho de restauração/ readequação arquitetônica.

Engrenagem do teto móvel da Sala São Paulo, que é um dos seus principais diferenciais para a acústica perfeita (Foto: Nilton Fukuda/Estadão)

Engrenagem do teto móvel da Sala São Paulo, que é um dos seus principais diferenciais para a acústica perfeita (Foto: Nilton Fukuda/Estadão)

 

Detalhes que fazem a diferença
O principal detalhe que faz deste um palco tão respeitado é sua acústica. Tal qualidade deve-se a diversos fatores, como a geometria da Sala, a disposição dos balcões, o posicionamento do palco, a inexistência de carpetes ou cortinas, a espessura da madeira do palco, o desenho das poltronas e, principalmente, o forro móvel do teto: composto por vários módulos, o teto pode se ajustar minuciosamente ao tipo de espetáculo programado, adaptando-se às mais diferentes formações musicais, do piano solo a uma grande orquestra com mais de cem membros.

Veja mais fotos da Estação Júlio Prestes, prédio histórico que foi restaurado e abriga a Sala São Paulo:

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