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Têxtil e Vestuário

O frio que aquece

as vendas

Inverno rigoroso ajudou na retomada da produção industrial do segmento têxtil, entretanto, ainda não foi suficiente para dar a guinada necessária

As temperaturas mais baixas registradas no outono e inverno deste ano, principalmente no Sul e Sudeste do Brasil, foram fundamentais para injetar fôlego no setor têxtil brasileiro. Depois de um primeiro semestre difícil, com queda de 11,1% na produção industrial têxtil em comparação com o mesmo período de 2015, a ocorrência de inverno mais rigoroso estimulou as vendas das peças no varejo, refletindo em toda a cadeia.

Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), diz que a situação está parando de piorar. De fato, em junho, enquanto o crescimento da atividade industrial foi de 1,1% em relação a maio, a categoria de confecção de artigos de vestuário e acessórios registrou aumento de 9,8%. Em 2015, a produção industrial de produtos têxteis caiu 14,6% na comparação com 2014, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).   

O frio ajudou a desovar o estoque das lojas, gerando liquidez e necessidade por reposição de peças. As vendas até abril foram ruins, mas melhoraram a partir de maio, coincidindo com datas importantes para o comércio, como o Dia das Mães e o Dia dos Namorados. “Houve aumento da procura nas lojas por produtos da coleção de inverno, eliminando os estoques destes artigos em várias redes varejistas”, diz Edmundo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX).

O novo patamar de vendas de maio e junho, porém, não foi suficiente para recuperar o resultado ruim do  primeiro semestre. Na comparação com junho de 2015, a produção industrial da categoria registrou queda de 4,4%. Ademais, ainda é preciso recuperar a queda no faturamento do setor. A cadeia têxtil e de confecção faturou US$ 36,2 bilhões em 2015, bastante abaixo dos US$ 53,6 bilhões do ano anterior.

A indústria de vestuário sofreu os efeitos da instabilidade política e econômica e foi diretamente afetada pela redução do poder de compra do consumidor. Diante da escassez de crédito, dos altos juros cobrados para o consumidor, da subida da inflação e da elevação do desemprego, é possível prever que este não será o ano da virada, ainda que o setor comece a dar indícios de retomada.

A grande expectativa da indústria está no segundo semestre, período importante para o varejo têxtil devido à coleção de verão e a datas comemorativas, como o Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal. Além disso, a própria indústria começa a se encontrar, depois de encerrar um processo de ajuste que levou à demissão de centenas de empregados nos últimos meses. O setor têxtil foi um dos que se beneficiou do real desvalorizado perante o dólar. A indústria passou a exportar mais e a importar menos. De acordo com Fernando Pimentel, da Abit, houve redução de 46% no volume de importação dos confeccionados, estimulando as empresas locais.

O aumento das exportações, a diminuição dos produtos importados e o inverno mais rigoroso geraram perspectivas positivas para a indústria têxtil. Além da retomada do crescimento, há desafios a serem perseguidos para aumentar a eficiência na relação varejo e indústria e tornar o setor mais competitivo. “Aumento da produtividade da indústria nacional, maior integração entre a cadeia de fornecimento e os canais de distribuição, investimentos em logística, tecnologias e na gestão de estoque, desenvolvimento de produto, melhoria na qualidade e acabamento de produto, dentre outros”, enumera Lima, da ABVTEX.

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Grendene

Ao bolso do freguês

Diante da retração do consumo, fabricantes do setor têxtil adaptam seus portfólios de produtos para viabilizar as compras

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Sotaque cearense: Fundada em 1971, a Grendene tem seis fábricas de calçados, a maior delas fica em Sobral (CE), onde também fica sua sede

As empresas da indústria têxtil são diretamente impactadas pelas oscilações do varejo. Fabricantes de roupas e calçados, peças que não se encaixam como itens de primeira necessidade e tampouco como bens duráveis, dependem da disposição da população para consumir. “Não é um produto movido a crédito e é uma aquisição por impulso”, aponta Francisco Schmitt, diretor financeiro e de relações com investidores da Grendene, campeã no estudo Empresas Mais no setor Têxtil. Portanto, é fundamental que o trabalhador tenha renda para ir às compras. Prever como estará o bolso do cliente quando uma nova coleção chegar ao mercado é um dos desafios das empresas do setor. “Temos de fazer a melhor oferta possível para o cenário, mas isso tem limites e, por mais atrativo que o produto seja, se o consumidor não tiver renda para a primeira necessidade, ele não vai comprar”, resume Schmitt. 

Para reduzir o impacto que a recessão pode ter nas vendas, a Grendene trabalha com um vasto portfólio de produtos que dá a ela a capacidade de se adaptar a diferentes perfis de consumidores. A empresa também foca no mercado internacional. Em 2015, vendeu 180 milhões de pares de sapatos, sendo que deste total 45 milhões foram para o exterior. A desvalorização cambial compensou, de certa maneira, a queda no mercado interno. “O mercado lá fora é muito maior que o brasileiro, claro, mas a competição também é mais acirrada”, afirma, deixando claro que a empresa não quer ganhar o mercado internacional por preço, mas exportar produtos com sua marca, seu apelo de design e sua qualidade a preços que sejam compatíveis. “Temos um produto que aguenta bem o câmbio e evitamos repassar aos nossos preços a variação cambial.”

Mesmo diante da crise, Schmitt diz que a Grendene segue sua estratégia de longo prazo, fazendo, eventualmente, ajustes táticos no curto prazo. “Fabricamos calçados em alto volume, pelo processo de injeção [de plástico no molde], que é diferente do modelo tradicional, e agregamos ao calçado a característica de moda rápida, lançando coleções a cada estação, às vezes mais de uma”, diz. Para o executivo, em 2016 o setor calçadista ainda terá queda e vai demorar até voltar ao nível que era. Sabendo da menor demanda no mercado interno, a Grendene vem adaptando seu mix de produtos, fazendo um balanço entre variedade e preço.

Resiliência

No ano em que completou 50 anos de existência, a Calçados Beira Rio – dona das marcas Beira Rio, Moleca, Vizzano, Molekinha e Modare – se destacou como segunda no ranking Empresas Mais. Já a Alpargatas, terceira colocada no setor Têxtil, também apostou no desenvolvimento de produtos para atrair os consumidores, como os novos modelos femininos Allegra e Tria, que chegam às prateleiras custando até R$ 20. “Eles venderam muito bem, mas sozinhos jamais nos fariam crescer. Ao todo foram cem modelos”, afirma o CEO da Alpargatas, Márcio Utsch. Mesmo com o consumo desfavorável neste ano, decorrente da retração da economia, as sandálias Havaianas e Dupé e os produtos da Osklen registraram, respectivamente, incrementos de 26,2% e 12,5% em volumes comercializados no segundo trimestre deste ano na comparação com 2015.

A companhia garante que não só não demitiu ninguém na crise como contratou cerca de 2 mil pessoas. “Por mais que pareça ser a solução mais rápida e fácil, mantivemos o time trabalhando e resistimos”, diz Utsch. No marketing, outra área “tentadora” para reduzir despesas, o investimento segue na faixa de 10% a 12% do faturamento. “Acreditamos que a resiliência da informação e confirmação da marca para passar para o consumidor é importante”, justifica. Para o período de crise, a estratégia incluiu um programa de atendimento mais agressivo no ponto de venda para melhorar a capacidade de expor os produtos e o desenvolvimento de modelos de chinelos mais baratos no processo construtivo.

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