Quando Susanny Oliveira (foto), 19 anos, acorda para ir à faculdade, o sol ainda não nasceu em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo. Sua rotina começa às 5h30, se divide entre estudos e trabalho e acaba apenas meia-noite, quando ela chega em casa e termina de revisar o material para a aula da manhã seguinte.

Morando a cerca de uma hora de ônibus da faculdade Anhanguera, onde cursa Enfermagem, e da empresa onde trabalha com telemarketing, entrar na rotina cronometrada e com poucas horas de sono foi a única maneira de poder buscar um diploma de graduação. E ela não está sozinha nessa realidade: atualmente, cerca de 15% dos jovens brasileiros trabalham e cursam a faculdade, segundo dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Hoje já são mais de 8 milhões de matrículas em cursos de graduação presenciais ou à distância. Embora uma parcela dessa turma consiga se dedicar somente aos estudos, a falta de recursos e os impactos da crise econômica impulsionaram os estudantes a manter, em turno paralelo, um emprego fixo. “Dedico cada hora livre para estudar, mas, como a fase de estágio pelo curso não começou ainda, eu acabei precisando de outro emprego para me manter”, conta Susanny.

Pulso firme
Segundo Fábio Pereira da Silva, coordenador dos cursos de graduação do Senac EaD de São Paulo, esse tipo de situação é bastante comum, tanto para quem estuda à distância quanto para quem precisa frequentar aulas no campus da faculdade. “A rotina do estudante que trabalha é cansativa. Ele tem que enfrentar condução cheia, trânsito e a própria rotina do trabalho ao longo do dia”, explica.

“Por isso, muitas vezes ele tem uma rotina agendada de estudo, mas chega cansado em casa e percebe que também precisa dar atenção para seu parceiro e sua família. Automaticamente ele fala ‘vou estudar amanhã’ ou ‘no final de semana eu compenso’, mas não é simples assim.” Para Silva, o vilão desse cenário é a falta de pulso firme no cumprimento do próprio planejamento.

Daniele Llano sabe bem dessas dificuldades. Aos 36 anos, chegou a tentar um curso superior diversas vezes, mas a necessidade de se dedicar ao trabalho a fez desistir no caminho. Morando com o marido e a filha pequena no Rio Grande do Sul, encontrou no curso de Gestão Financeira à distância no Senac uma maneira de continuar trabalhando e estudando sem travar tanto a rotina. “Eu começo o dia trabalhando, coordeno meus horários com a escola da minha filha e, quando ela descansa, eu sento para completar as aulas do curso”, conta.

Disciplina é a chave para não desistir
Nos primeiros seis meses de curso, tanto Daniele quanto Susanny pensaram em desistir dos estudos e seguir só com o trabalho. “Eu achava que estudando à distância eu teria mais tempo livre, mas a dedicação é a mesma, às vezes até maior”, conta Daniele, que nos últimos dois anos precisou fazer malabarismo em casa para acompanhar as aulas ao vivo enquanto a filha estava ainda acordada.

“Contei muito com a compreensão dos meus professores, que chegaram a brincar com a minha filha, pela câmera do computador, pedindo que ela me deixasse concluir a aula.” O esforço valeu a pena: Daniele se formou em dezembro passado e já tem aspirações para o futuro. “Antes eu achava que não conseguiria, mas com perseverança hoje acredito que sou capaz de tudo. Um mundo de possibilidades se abriu com o diploma.”

Já Susanny ainda tem uma jornada de mais três anos pela frente, mas já não pensa em desistir. “Eu percebi que sem foco não dá para estudar. No início do curso cheguei a reprovar em uma matéria porque não estudava nos horários que tinha livres em casa, e deixei acumular as tarefas. Agora uso até meu tempo de jantar no trabalho para não deixar isso acontecer.” Na área da saúde, o estágio geralmente só é liberado ao estudante após alguns semestres de aulas teóricas e práticas, e Susanny não vê a hora de isso acontecer. “Acredito que se eu puder trabalhar na minha área, mesmo que seja apenas um estágio, vou conseguir conciliar melhor a rotina, porque na verdade vou estar aprendendo enfermagem o tempo todo”, conclui.

Dicas para organizar a rotina

Não deixe acumular tarefas
Os horários de estudo na faculdade estão cada vez mais flexíveis e, mesmo na modalidade presencial, parte das aulas é ofertada em plataformas online de aprendizagem e com palestras virtuais que o aluno pode fazer de casa. Não pense, porém, que essas atividades são facultativas e que podem ser realizadas em um único fim de semana ou apenas no final do semestre. “Quem acumula tarefas ao longo dos dias ou dos meses se assusta com o volume de material não lido e tem maior chance de desistir do curso do que pessoas que fazem essas atividades diariamente, diluídas na rotina”, explica Silva.

Faça da tecnologia sua aliada
Abrir a tela do celular e entrar nas redes sociais é um ato quase automático para a maioria dos usuários de internet. Contudo, para quem deseja manter uma rotina saudável de estudos e trabalho, é importante reduzir o tempo de lazer nas redes e usar os minutos livres no celular para ver os materiais extras indicados pela faculdade ou navegar na plataforma de ensino online. Além disso, não se deve esperar até a próxima aula para resolver uma dúvida. A recomendação é desenvolver a proatividade e fazer pesquisas na internet quando surgir um questionamento pontual, dedicando o curto tempo das aulas em grupo para trocar os aprendizados com colegas e professores.

Tenha foco
Não é difícil encontrar uma atividade mais divertida do que estudar para a prova, mas quem trabalha precisa fazer bom uso desse tempo. Os finais de semana só serão livres de preocupação se o estudante souber usá-los a seu favor, reservando um pequeno espaço de tempo no sábado e no domingo para os trabalhos da faculdade, e usando o restante para descansar e recuperar as energias para a próxima semana.